sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Para as longas horas de espera e solidão: escrever. Eis a solução

Enquanto o tempo não passa eu vou escrevendo...

Quatro e cinquenta. Restam apenas dez minutos. Logo será cinco horas e aí restará uma hora. A chuva cai. Lá fora os carros passam e jogam água nas pessoas que andam pelas calçadas. As senhoras passam com seu casacos e sombrinhas. As crianças brincam de pular as poças d'água que aparecem no caminho enquanto as mães, impacientes, juram doces e palmadas quando chegarem em casa. As ruas estão todas iluminadas e o cheiro do Natal se espalha por todo o ar. Que pena que aqui não neva. Se nevasse ia ser tão lindo! As ruas iluminadas estariam cobertas por um tapete branco e então, à noite, com o céu todo escuro, eu iria pensar que as nuvens caíram no chão, que o mundo virou de cabeça para baixo e agora eu estaria no céu, caminhando sobre todo aquele tapete branco de nuvens. As estrelas se confundiriam com os postes e luminárias acesas. As pessoas seriam anjos. Ah! Teríamos anjos louros, anjos ruivos, anjos negros. Todos tocando suas harpas e convivendo em harmonia. Mas aqui não neva. Aqui o céu não muda de lugar. Só vejo a chuva, as ruas iluminadas, as mulheres e suas sombrinhas, as crianças e as poças e as mães. Já passa das seis. Só mais uma hora enfim e fim.

Receita

Estou muito triste. Descobri que não nasci para cozinhar. Por mais boa vontade que tenha, não consigo cumprir à risca nenhuma receita. Por mais que esteja tudo lá, bem escrito, explicado, indicando como se faz, parece que uma força maior me empurra para o caminho contrário e me obriga a fazer de um jeito diferente. Mais uma vez me frustrei. Hoje, na tentativa de fazer um pão de queijo. Receita simples que eu não consegui cumprir. Um ovo a mais e a massa desandou. Era para o café, para impressionar as pessoas que amo. Era para me satisfazer, mas, mais uma vez, não deu certo. Então, enquanto mexia a massa com raiva, percebi que cozinhar não é nada além do que o reflexo de minha própria vida. O cheiro forte do queijo, o leite milimetricamente derramado e basta um ovo a mais para acabar com tudo. O mesmo ovo que é símbolo de vida. A chuva caia enquanto eu seguia na tentativa de acertar. A receita estava lá, me mandando fazer, me mostrando o caminho para a felicidade e eu simplesmente não consegui seguir. Um único caminho errado e minha vida se misturou àquela massa mole, de cheiro forte, gosmenta. E quanto mais eu afundava minhas mãos para alcançá-la, mais ela escorria por meus dedos. Então parei. Desisti. E tive raiva por desistir tão cedo. Uma última tentativa de reparar o erro. Um estrondo! A televisão queimou e junto com ela, a felicidade mais uma vez fugiu. Por que não segui a receita? Mas a chuva parou. O calor do forno alimentava a esperança. E aí deu certo. O pão de queijo deu certo. A vida deu certo. Cresceu, tomou forma, adquiriu consistência, cor... Mas faltou o sal. Eu sabia. Continuou incompleta, longe. E eu só dando voltas, desviando, fugindo dela. Mas por que eu não segui a receita? Porque não existe receita. Eu sou a receita. Errada. Errando. Para acertar. Um dia, quem sabe. Não nasci para cozinhar, mas me desculpe, tenho um enorme talento para a felicidade. Só não sei como chegar lá. Ainda.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Mudanças... não feitas

Pensei em mudar o nome do blog para "depósito de textos" ou "depósito das palavras". Pensei que "Jornalística" não era o nome ideal para o tipo de texto que estou postando. Na verdade, quando criei esse blog a proposta era outra. Mas gosto dele assim. Gosto dos textos que estão nele, embora nunca tenha coragem de mostrá-los a alguém. Prefiro pensar que estão num depósito mesmo. Esquecidos. Desconhecidos. Quanto a mudança do nome, resolvi não colocá-la em prática. Entendi o que ela quer dizer. Está clara.

Clarice,

Estou lendo a bela biografia de Clarice Lispector (Clarice,) escrita por Benjamin Moser. Enquanto passava pelos capítulos que remontam a trajetória dessa fabulosa escritora, uma das minhas prediletas, recordei um texto que fiz há algum tempo sobre minha relação com Clarice. Não me lembro muito bem, mas talvez tenha escrito isso quando acabei de ler, pela milésima vez, o conto “Felicidade Clandestina”, um dos mais bonitos, simples e sinceros que já li.

Clarice caiu em minhas mãos como as folhas caem das árvores no outono: tão naturalmente que nem percebi. Quando dei por mim já estava tomada pela tal “felicidade clandestina” que a frágil menina do Recife carregava envolvida em seus braços. Fui arrebatada. Aquela história me fascinou de tal forma que não conseguia mais parar de ler. E assim seguiu. Lia as crônicas, os contos, os romances, mas com uma dúvida sempre presente em minha mente: quem será a menina/mulher que de forma tão simples conseguia complicar as coisas mais rotineiras da vida humana? Como já disse, Clarice veio até mim de forma natural. Conhecia Clarice pelos livros que escolhia, entusiasmada, nas estantes. Nunca a tinha visto. E lendo, tinha uma possível imagem do que seria Clarice. Uma forma disforme. Em determinadas histórias tinha a certeza de lidar com uma mulher madura, de experiências bem definidas. Mas, ao mudar de parágrafo, aquela imagem se desfazia rapidamente. A mulher madura dava lugar a uma pequena menina. Sofrida. E como sofria! E como tinha pena daquela menina! Mas, subitamente, a menina também sumia. O sofrimento também sumia. Clarice, então, parecia uma página em branco prestes a ser preenchida. Como? Não tinha a menor idéia. E por muito tempo preferi assim. Não conhecer Clarice. Talvez se olhasse seu retrato desvendaria a mulher, a escritora, o mistério. E percebi que era muito melhor construir uma Clarice através das pistas que eu encontrava em seus textos. Era como se um ponto de interrogação ou qualquer palavra olhassem para mim e me dissessem: “olha sou eu. Me desvende, me ache.”Mas eu nunca achei. Não de forma precisa. Seria ela a menina que amava os livros, ou a senhora perdida no Maracanã? A menina que conversava com as galinhas ou a pobre mulher que foi atropelada? Clarice era tudo aquilo. Então eis que vejo o retrato daquela mulher que sempre me chamou a atenção. E assim como a “felicidade clandestina” havia me arrebatado, aqueles olhos faziam o mesmo. Não olhavam. Fuzilavam. Era a mulher. Era a menina. Era triste. Serena. Forte. Não consegui identificar. Era como se aquela foto olhasse para mim e risse. “Não é possível. Sou eu!”. Mas ainda não sei quem era. Assim como seus textos, sua fisionomia gostava de brincar. Hora revelava tudo, hora escondia. E assim Clarice vai permanecer para mim. Forma. Disforme.

Salve Clarice Lispector

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Para ler aos domingos



Já ouvi em algum lugar que se o amor for deixar alguém, então que deixe num domingo e que aos domingos, ficar só é lindo. Pois o que faz do domingo um dia incomum?
Talvez seja o próprio nome. Não é doloroso como Segunda-feira. Normal como terça-feira. Esperançoso como quarta. Não causa expectativa como a quinta-feira ou mesmo entusiasmo como a sexta. Não é maravilhoso como o sábado. É apenas domingo. E no domingo tudo parece mais lento. O Sol demora a nascer e demora a se pôr. A chuva não tem pressa de cessar e o vento se prolonga por toda a manhã. Domingo o mar vive de ressaca. Os peixes se escondem. Os pássaros, com preguiça, cantam timidamente. As flores nem pensam em se abrir. Os carros descansam nas garagens, janelas e portas ficam trancadas. As ruas aproveitam para adormecer. Mas há os que trabalham no domingo. As camas perdem a hora, a T.V é acompanhada e é acompanhante. As caixas contendo recortes de jornais, cartas de amor, fotos antigas, velhos brinquedos e vestidos de noiva são abertas e permanecem abertas por tempo indeterminado, afinal, é domingo. Domingo não tem hora. Domingo não tem dono. Domingo é diferente para cada um e por isso é tão especial. Domingo criança acorda tarde, mas dorme cedo. Domingo é casa de vó. É encontro com os primos. É namoro no portão. Domingo os rádios e vitrolas cantam o amor. Domingo a felicidade é prolongada e a tristeza fica pequena. Domingo é dia de gol. É dia do cachorro passear. Domingo é pra ler jornal, é pra ler livro e pra deitar na rede. Domingo tem circo e tem teatro. Domingo é do pijama, do cabelo enrolado, da boca sem batom. Domingo tem violão e tem risos. Domingo tem pizza e tem sono. Domingo tem tanta coisa e se estende tanto que a dor perde o espaço. Os amores vão embora e nem percebem. Mas é só porque é domingo. Pois segunda tudo vai ficar mais doloroso e na terça talvez o mundo acabe. Não haverá mais lágrimas pra chorar na quarta e na quinta a saudade apertará. A sexta será solidão e o sábado pranto. Mas aí será domingo. Apenas domingo...

Conselho

Você precisa sair por aí
E ver quanta coisa mudou
Tá tudo bem por aqui
Só você não reparou.

Você precisa de um dia na praia
Bahia ou Rio, não importa o lugar
Você precisa encontrar sua laia
Viver a vida, aproveitar.

Você precisa do Sol no verão
E de um banho de chuva também
Já te dei a solução:
Saia e vá ser outro alguém.

Pensamento do dia



Os meus heróis diziam que iriam mudar o mundo. Eu acreditava.