quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Para ler aos domingos



Já ouvi em algum lugar que se o amor for deixar alguém, então que deixe num domingo e que aos domingos, ficar só é lindo. Pois o que faz do domingo um dia incomum?
Talvez seja o próprio nome. Não é doloroso como Segunda-feira. Normal como terça-feira. Esperançoso como quarta. Não causa expectativa como a quinta-feira ou mesmo entusiasmo como a sexta. Não é maravilhoso como o sábado. É apenas domingo. E no domingo tudo parece mais lento. O Sol demora a nascer e demora a se pôr. A chuva não tem pressa de cessar e o vento se prolonga por toda a manhã. Domingo o mar vive de ressaca. Os peixes se escondem. Os pássaros, com preguiça, cantam timidamente. As flores nem pensam em se abrir. Os carros descansam nas garagens, janelas e portas ficam trancadas. As ruas aproveitam para adormecer. Mas há os que trabalham no domingo. As camas perdem a hora, a T.V é acompanhada e é acompanhante. As caixas contendo recortes de jornais, cartas de amor, fotos antigas, velhos brinquedos e vestidos de noiva são abertas e permanecem abertas por tempo indeterminado, afinal, é domingo. Domingo não tem hora. Domingo não tem dono. Domingo é diferente para cada um e por isso é tão especial. Domingo criança acorda tarde, mas dorme cedo. Domingo é casa de vó. É encontro com os primos. É namoro no portão. Domingo os rádios e vitrolas cantam o amor. Domingo a felicidade é prolongada e a tristeza fica pequena. Domingo é dia de gol. É dia do cachorro passear. Domingo é pra ler jornal, é pra ler livro e pra deitar na rede. Domingo tem circo e tem teatro. Domingo é do pijama, do cabelo enrolado, da boca sem batom. Domingo tem violão e tem risos. Domingo tem pizza e tem sono. Domingo tem tanta coisa e se estende tanto que a dor perde o espaço. Os amores vão embora e nem percebem. Mas é só porque é domingo. Pois segunda tudo vai ficar mais doloroso e na terça talvez o mundo acabe. Não haverá mais lágrimas pra chorar na quarta e na quinta a saudade apertará. A sexta será solidão e o sábado pranto. Mas aí será domingo. Apenas domingo...

Conselho

Você precisa sair por aí
E ver quanta coisa mudou
Tá tudo bem por aqui
Só você não reparou.

Você precisa de um dia na praia
Bahia ou Rio, não importa o lugar
Você precisa encontrar sua laia
Viver a vida, aproveitar.

Você precisa do Sol no verão
E de um banho de chuva também
Já te dei a solução:
Saia e vá ser outro alguém.

Pensamento do dia



Os meus heróis diziam que iriam mudar o mundo. Eu acreditava.

domingo, 15 de novembro de 2009

Diário

Estava triste e sozinha. Há anos largou tudo para cuidar da família. Esqueceu de alimentar os sonhos que davam sentido à sua vida. Abandonou todos os planos para se dedicar às atividades do lar que ocupavam grande parte de seu dia. Não se arrumava para se sentir bem, mas para que o marido se sentisse bem. Mantinha o longo cabelo louro preso em um coque impecável, enquanto o que desejava de verdade era senti-lo atrapalhado pelo vento. Os vestidos bem passados escondiam os fartos seios e os quadris largos. Os pés, sempre inchados, se acomodavam em sapatos baixos e velhos. Tornara-se a mulher perfeita. A comida pontual e deliciosamente à mesa. As roupas cheirosas esperavam para serem recolhidas do varal. A casa limpa e perfumada era o cenário perfeito para receber os grandes empresários. As crianças bem educadas cresceram. Saíram de casa e mal conversavam com ela. O marido chegava cada dia mais tarde. Agora estava velha, cansada de uma vida que não lhe pertencia. Esqueceu de alimentar os sonhos que davam sentido à sua vida, afinal, escolhas assim só aconteciam uma única vez. Agora estava triste. Triste e sozinha. Arrependida, jamais.

Michael e os pestinhas...

Relato de uma tentativa frustada de assistir This Is It

Queridos papais, por favor, eduquem suas crianças!

Era a única coisa em que eu conseguia pensar enquanto Michael Jackson cantava e dançava Wanna Be Startin' Somethin'. Não, eu não estava no show do MJ (quase isso). Também não, dessa vez a culpa não foi dele. Acontece que como milhões de pessoas (?) em todo o mundo, fui conferir o documentário This Is It, que narra os ensaios daquela que seria a última turnê do astro (interrompidos pela polêmica morte...). Confesso que fui mais por curiosidade do que tudo e o filme não me desagradou...Nem agradou. Marketing furado, This Is It conseguiu mostrar, sem nenhum grande deslize, aquilo que todo mundo já sabia: MJ estava longe de ser normal. Roupas estranhas e diálogos confusos, para não dizer esquisitos, só reforçaram a fama de louco conquistada há anos pelo cantor. Além disso, danças milimetricamente coreografadas e arranjos perfeitamente executados confirmaram, mais uma vez, a qualidade artística de MJ, resultado de um perfeccionismo extremado (doentio?) do astro pop, mas que surte um baita efeito. This Is It é um prato cheio para os fãs, que puderam se deleitar com MJ cantando todos os megassucessos que o transformaram em rei do pop.
Voltando às crianças, que papelão. Assisti ao filme no sábado para fugir do tumulto da estreia e eis que de nada adiantou, houve tumulto da mesma forma. Não por conta dos fãs, esses estavam mais preocupados em chorar ao verem o ídolo cantando Human Nature, mas por um bando de crianças de seu quase 12 anos que gritaram, correram e tacaram pipoca durante todo o filme. Fruto da péssima educação dada em casa. Concordo com as outras pessoas que como eu, também tentaram assistir ao filme: menores de 15 anos no cinema? Só acompanhados dos pais. E fica aí o recado: Papais, eduquem seus pestinhas!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Parei Pra Pensar e...


Queria escrever para ver se passa o que estou sentindo agora, mas acho que isso não vai acontecer. Estou com dúvidas. Porque não posso acertar na primeira tentativa? Porque tudo sempre toma o rumo mais difícil, mais complicado? Porque às vezes, a vida dos outros parece mais simples do que a minha? Eu tenho medo, mas ao mesmo tempo tenho convicção de que estou fazendo a escolha certa. Sei que não sou rica, sei que tenho uma família que me ama demais, mas sinto a necessidade de pisar em falso, de bater com a cara, de cair e me levantar sozinha. Desisto muito fácil das coisas e quero parar com isso. Talvez não seja a melhor opção, mas é a minha opção. Não estou a fim de mudá-la. Não estou a fim de mudar. Não estou a fim de me mudar. Sou louca, sou triste, sou indecisa, sou fraca, sou. Isso: apenas sou e porque sou isso, me sinto bem. Não vou parar, prefiro seguir e ver aonde a vida irá me levar. Não vou parar, prefiro seguir e descobrir que palavra será a próxima a me explicar. Sim? Não? Talvez. Essa é a palavra que me explica hoje. Eu sei que não sou sozinha. Talvez seja melhor ficar um pouco. Só comigo mesmo. Só com os meus pensamentos tortos. Só com as minhas falhas. Só com os meus motivos. Só com a minha felicidade. Talvez inventada, mas minha e feliz felicidade. Está todo mundo lá fora. Eu estou aqui dentro. Talvez seja melhor sair também. Sair dos outros. Entrar em mim. Parar pra pensar. É isso que eu sou, os outros? É pra isso que eu vivo, para os outros? Talvez. Que palavrinha perigosa e que não me deixa em paz. Porque não de cara ou sim de cara. Talvez. Talvez o dia chegue ao fim e eu continue aqui, sem resposta, sem entender, mas procurando. Tentando. Errando. Talvez, quem sabe um dia, eu pare e veja minha vida lá atrás e pela primeira vez não tenha raiva ou vergonha de assumir. Talvez, por hoje, é melhor que sim. É melhor que não. Só por hoje. Talvez...

sábado, 18 de julho de 2009

Michael x Macabéa

Passada um pouco a confusão em torno da morte do astro pop Michael Jackson, me sinto um pouco mais à vontade para escrever sobre o assunto.



O lamentável (em todos os sentidos) episódio da morte do cantor Michael Jackson, me fez lembrar outra história. Assisti a toda cobertura feita pela mídia, inclusive aos inúmeros especiais que exibiam a vida e obra (mais a vida) do astro e o grande espetáculo que foi seu funeral e assim, fui remetida ao último romance escrito por Clarice Lispector, A Hora da Estrela, o qual narra a história de Macabéa, uma moça nordestina que chega ao Rio de Janeiro esperançosa, a fim de tentar a vida na cidade grande.
Mas, em que a morte de Michael se relaciona com o livro de Clarice? Mais ainda, como pode Michael, um artista consagrado e detentor de uma grande fortuna, ter alguma semelhança com a protagonista Macabéa, caracterizada pela própria Clarice como “uma moça tão pobre que só comia cachorro quente”?
Macabéa, durante todo o livro é tratada como mais uma entre tantos retirantes que chegaram ao Rio de Janeiro e por isso, sua história de vida não ganha destaque. Isso muda a partir do momento em que, atropelada por um carro, Macabéa morre. Nessa hora, a protagonista tem sua vida reconhecida. Michael, apesar de ter conquistado lugar de destaque devido ao grande sucesso de suas canções mesclado à sua tumultuada vida fora dos palcos, há muito tempo estava fora dos holofotes. Sem lançar material inédito desde 2001 e com o último escândalo, o julgamento por pedofilia, protagonizado em 2005, o rei do Pop fora esquecido pela mídia. Mas, no dia 25 de junho de 2009, Michael ressurgiu com força total. Ironicamente, assim como a personagem de Clarice, após a sua morte.
É nesse ponto que as duas histórias se relacionam. A hora da estrela, que dá título ao romance, é o momento da morte, quando o ser humano não mais é invisível aos olhos das pessoas, que só percebem o quanto ele é importante e faz falta, quando ele não mais existe.
Infelizmente, Michael passou pela sua hora da estrela, hora esta que vem sendo explorada de todas as formas por pessoas que desejam se promover às suas custas, através de matérias sensacionalistas exibidas em todos os veículos de comunicação e grande marketing em cima dos discos produzidos pelo cantor. O que no princípio poderia ser considerado normal, já que o maior nome da música Pop acabara de falecer e a notícia pegara a todos de forma surpreendente, agora, é considerado exagero e desrespeito ao grande artista que Michael é. A notícia de sua morte foi transformada em espetáculo e sacia a fome por ibope que permeia os órgãos de comunicação.
É certo que Michael, como qualquer grande artista, vendeu muitos discos em vida. Mas, com certeza, esses números não superam as vendagens alcançadas após sua morte. Isso indica que suas músicas são melhores hoje do que quando foram lançadas? Não. Apenas indica que quando estava vivo e podia dar espetáculos para todos em todo o mundo, seu trabalho não era tão reconhecido e valorizado. Hoje, como não pode mais cantar, teve suas canções imortalizadas. Com a perda, o mundo percebeu, tardiamente, a falta que Michael fará e corre para comprar todo e qualquer material disponível, como forma de suprir essa falta.
Mais uma vez, a história de Michael esbarra no romance escrito por Clarice Lispector, mais precisamente, no resumo que a autora faz do mesmo: “a história (...) é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima”, com a pequena diferença de que Michael não é tão anônimo assim.